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ITCidades presente na 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, realizada em Porto Alegre (RS)

O doutor em Sociologia Política Valcionir Corrêa, membro da diretoria do ITCidades, A participou da 1ª Conferência Internacional Antifascista, que ocorreu no período de 26 a 29 de março em Porto Alegre (RS).

Leia abaixo o relato de Valcionir e confira no link a Carta de Porto Alegre: Unidade Contra o Fascismo e pela Soberania dos Povos, aprovada no evento:  https://antifas2026.org/carta-de-porto-alegre-unidade-contra-o-fascismo-e-pela-soberania-dos-povos/

1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos

A 1ª Conferência Internacional Antifascista ocorreu no período de 26 a 29 de março deste ano, na cidade de Porto Alegre, RS. Eu e minha esposa-companheira Maria da Conceição estivemos presentes nos auto representando e representando o ITCidades e o coletivo Ecolhar. Solicitei à coordenação do evento o registro da presença e do apoio destas nossas organizações.  No primeiro dia, após a cerimônia e conferência de abertura, ocorreu, no centro da cidade, a Marcha Antifascista que, segundo a coordenação, contou com a participação de 8 mil pessoas.

Este importante evento foi uma iniciativa de 150 organizações políticas, partidos, centrais sindicais e movimentos populares nacio nais e internacionais. Conforme a coordenação, 2 mil ativistas estiveram presentes representando diversos países da América Latina e de outros continentes. O evento também foi transmitido online, ampliando a participação de milhares de companheiros/as e camaradas de várias regiões.  A representação mundial foi marcante e expressiva, contou com a presença de representantes e delegações dos seguintes países: Palestina, Marrocos, Uruguai, França, Canadá, Costa do Marfim, México, Dinamarca, Suíça, EUA, Paraguai, Filipinas, Argentina, Chile, Colômbia, Inglaterra, Espanha, Alemanha, Portugal, Colômbia, Cuba, Venezuela, Haiti, Porto Rico, Liga Árabe e outros. O Brasil contou com representantes de diversos estados, e infelizmente, sendo nosso Estado considerado o mais conservador e de comportamento fascista, a participação não foi muito boa. Entretanto, estávamos lá. Estavam também presentes a ex-senadora Ideli Salvatti (PT-SC), que foi uma das conferencistas do evento, e Marta Vanelli (SINTE-SC) com outros companheiros/as do Instituto Humaniza SC.

Dentre as organizações presentes estiveram na frente, principalmente, os partidos políticos PSOL, maciçamente representado pelos seus militantes e lideranças, PT, PCdoB e outras organizações, como a CUT e outras centrais sindicais, associações como a ATTAC, o MST, bem como embaixadores, ministros, deputados, vereadores de diversos países presentes. Registro, também, a participação do renomado pensador marxista brasileiro radicado na França, Michael Lowy, do jornalista Breno Altmann, da Ópera Mundi, de Thiago Ávila, da Flotilha Global Sumud, ativista de apoio aos palestinos de Gaza, Luciana Genro (PSOL-RS), Auricélia Arapiun (povos indígenas-PA) e Daiana Santos (RJ). Destaco a ampla participação das mulheres como conferencistas e na coordenação do evento. Importante também frisar as análises de conjuntura de forma uníssona e profunda sobre os tempos atuais.

A Conferência teve como eixo central 12 conferências temáticas que abordaram temas de significativa relevância: Experiências de aprofundamento da democracia em governos populares; Ofensiva da Extrema-Direita no Mundo, a luta contra o fascismo ultra-neoliberal de Milei; O Enfrentamento dos Trabalhadores ao Neoliberalismo e ao Fascismo; O Brasil sob a Ameaça da Ultradireita e do Imperialismo; A Solidariedade entre os Povos e a Luta Anti-imperialista; A Resistência  Palestina ao Genocídio e à Opressão do Estado de Israel; O Combate ao Fascismo nas Américas, A Luta Contra o Negacionismo Climático e Pela Reforma Agrária no Contexto da Crise Ambiental; Antirracismo, Feminismo e Direitos Civis na Luta contra o Fascismo; Educação, Ciência e Tecnologia para Soberania dos Povos; e Resistências e Articulações e Alternativas Democráticas. Além dessa programação estrutural, ocorreram atividades autogestionadas com diversos temas, como o lançamento do Manifesto Ecossocialista, que teve a organização de Michael Lowy e Júlia Câmara, defendendo a revolução socialista tendo como base a ecologia.  Contou com grande participação do público presente e que merece ser lido e debatido como educação política.

A Conferência foi momento de celebrar a humanidade e lembrar que, para termos uma sociedade com igualdade e justiça sociais, precisamos dar as mãos e unirmos forças para enfrentarmos os capitalistas e seus asseclas, precisamos da unidade da classe trabalhadora e de uma frente ampla nacional e mundialmente para combatê-los nessa sua fase mais agressiva. Com a globalização econômica e a equalização dos problemas sociais para os trabalhadores de todas as nações, o Internacionalismo se faz urgente e necessário.  Unirmo-nos pelo que nos aproxima, isto é, o anticapitalismo, o anti-imperialismo, o antifascismo, o antipatriarcalismo e a construção da transição socialista. Combatermos o capitalismo neoliberal, o capital financeiro que domina o mundo e determina os nossos destinos, que reconfigura as cidades por meio da especulação imobiliária e promovendo a gentrificação pela expulsão dos trabalhadores dos centros urbanos e obrigando-os a viverem nas periferias degradadas, ao mesmo tempo em que retira direitos humanos e sociais e a ameaça à existência humana com a degradação da natureza e a crise ambiental decorrente. Há uma profunda crise econômica, política, social e moral que resulta na crise civilizacional em curso.

A Conferência foi importante ação política que oportunizou a reunião de diversos ativistas e lideranças com larga experiência política de combate às atrocidades promovidas pelos capitalistas, extrema-direita e os fascistas que são os sicários da burguesia. A Conferência reafirmou a bandeira histórica da esquerda que defende um modo de produção econômica e de consumo para atender as necessidades sociais e não as demandas de mercado.  A convergência na ação deve incluir forças organizadoras da classe trabalhadora, unindo os trabalhadores urbanos e rurais, os imigrantes, as mulheres, as pessoas LGBTQ+, os povos originários, as pessoas racializadas e as minorias reprimidas e a defesa da Natureza, combater as agressões imperialistas e coloniais.  Esses temas não são pautas identitárias, porque os preconceitos são utilizados pelos fascistas para dividir os trabalhadores e manter a opressão. O xenofobismo, o racismo, a misoginia e outros preconceitos são estruturantes de uma sociedade dividida em classes que servem para hierarquização social e o domínio burguês-capitalista.

A realização da Conferência Internacional Antifascista foi um evento muito importante que se fazia necessário para organizar a Unidade da classe trabalhadora nacionalmente e internacionalmente e enfrentarmos os fascistas, que são os defensores dos expropriadores capitalistas diante da guerra de classe declarada. Os fascistas agem de forma violenta para manter os privilégios dos capitalistas nesse momento da crise orgânica e estrutural do capital. Por meio de artimanhas e da desinformação, tentam ganhar eleições para se apropriarem das estruturas coercitivas do Estado (polícia e forças armadas) para aparelhamento das forças repressoras contra a classe trabalhadora e à humanidade como um todo. Cito aqui as guerras imperialistas atuais dos governos dos EUA e Israel contra ao Estado da Palestina e o Irã, bem como o permanente boicote econômico a Cuba e o sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa, deputada Cília Flores, para se apropriarem do petróleo e riquezas da Venezuela.

Diante da crise orgânica e estrutural, os neofascistas que surgem nesse contexto mundial analogamente se assemelham ao surgimento do fascismo e nazismo do início do Século XX no contexto das crises conjunturais na Alemanha, Itália e Japão. Porém, agora, trata-se de uma crise econômica mundial que impacta toda a humanidade, por isso a extrema-direita se organiza mundialmente, não se tratando de um problema somente de ordem nacional. Destoa um pouco das análises dos conferencistas presentes para os quais ainda predomina a ideia de que Imperialismo é um Imperialismo de Estado e não Imperialismo de classe. Com a globalização econômica neoliberal, que significa acumulação econômica e expansão total do capital, o poder econômico se transforma em poder político da classe dos capitalistas em escala global por meio do capital financeiro sem controle dos Estados Nação e das instituições multilaterais, criadas para esse fim, e que, atualmente, perderam o protagonismo diplomático, como a ONU, diante das forças e hostilidades dos capitalistas organizados em grandes corporações financeiras e econômicas que se sobrepõem às decisões democráticas circunscritas nos Estados nacionais.

Na atualidade, vivemos o Império de classe do capital contra a classe trabalhadora mundial que decorre da contradição fundamental entre capital e trabalho que teve início nos anos de 1970 com a queda da taxa de lucro. Exemplo disso, podemos citar o movimento No Kings nos EUA, onde milhões  de estadunidenses foram às ruas contra o presidente Trump. Quem está no poder do Estado não é o povo, mas sim os capitalistas que dominam as instituições econômicas, políticas e sociais.

Inúmeras vezes apareceram nas análises de diversos conferencistas que precisamos de um projeto socialista para defendê-lo junto à população, junto à classe trabalhadora, sem o qual dificulta o convencimento de que é possível outra economia que atenda às necessidades sociais e outro modelo civilizacional. Como exemplo, cito o coordenador João Pedro Stédile, do MST, que defendeu que, para combatermos de imediato o fascismo, precisamos defender a reforma agrária, o desmatamento zero, reflorestar, implantar agroecologia contra o agronegócio, mudar a matriz de transporte público para o elétrico, para salvar o planeta e a humanidade e produzindo comida boa e sem venenos.

Como síntese final, precisamos construir uma alternativa anticapitalista e um novo modelo de produção e projeto civilizacional. Precisamos nos fortalecer com a Unidade nacional e internacional e uma Frente Ampla de Esquerda reunindo organizações políticas e sociais, partidos políticos, centrais e sindicatos, movimentos sociais, redes sociais, universidades e escolas, conselhos comunitários, institutos e ong’s, mídia e redes sociais e pautar nossos temas. A Carta de Porto Alegre, assinada por todas as entidades presentes no último dia da Conferência, reflete esses princípios organizativos e necessários para o enfrentamento político de classe, bem como se trata de uma síntese dessas aspirações para construirmos um mundo melhor para toda a humanidade.

Se a guerra de classe está declarada, então, vamos ao combate! Porém, com consciência de classe e estrategicamente organizados.

Saudações socialistas!

Valcionir Corrêa

Doutor em Sociologia Política

Professor de Filosofia e Sociologia

Autor do livro Capitalcracia: a crise como degradação e exploração

Membro Diretoria da ITCidades e Coletivo Ecolhar

IT CIDADES

Equipe de comunicação do IT CIDADES.